Elogie! Sem medo e com sinceridade

Por Michele Bravos

 

Se você já deixou de elogiar o seu filho por achar que assim ele se tornaria arrogante, está na hora de substituir algumas crenças falsas sobre as palavras de afirmação – aquelas frases positivas, que declaram as potencialidades de alguém. Para o antropólogo Gary Chapman, especialista em relações familiares e autor do best-seller As cinco linguagens do amor, afirmar quem o outro é, principalmente quando esse outro é seu filho ou sua filha, é uma forma poderosa de demonstrar amor, gerando segurança nas crianças. Por exemplo, quando se afirma o que elas representam para a família ou quando se reforça as suas características positivas. Em seu livro As cinco linguagens do amor para crianças (uma versão pensada para os filhos), no qual é coautor com Ross Campbell, ele conta vários relatos de aconselhamentos em que o “problema” do desânimo ou distanciamento do filho era o fato de a criança se sentir amada com palavras de afirmação, porém, por não recebê-las dos pais, sentia-se rejeitada. “Pais podem reter palavras de afirmação pensando em evitar a arrogância nos filhos – uma vez que, certamente, humildade é preferível à arrogância –, mas existe um meio-termo entre o exagero e a escassez”.

 

Na busca por esse equilíbrio é preciso estar ciente de que não existe medida ou fórmula certa para os elogios. Para a psicóloga Carolina Lisboa, professora e pesquisadora da PUCRS e consultora em escolas, “a melhor educação é a que mescla exigência com elogio. A mesma proporção”. A psicóloga alerta que tanto o exagero como a ausência de elogios são prejudiciais. “A falta de reforços positivos leva à baixa autoestima, o que poderá trazer consequências negativas nos relacionamentos interpessoais e até no desempenho escolar, por exemplo. No entanto, o excesso pode gerar uma dependência emocional, uma pessoa que viverá constantemente em busca de aprovação”.
 

O antropólogo Gary Chapman sugere que os pais elogiem seus filhos todos os dias, mas não todos os minutos de cada dia. Para Adriana Castro, mãe de três estudantes do Colégio Marista João Paulo II, de Brasília (DF), elogiar significa contribuir para a segurança e a autoestima dos filhos, por isso não hesita em fazê-lo. “Os elogios devem ser verdadeiros e acontecer nos momentos em que sentirmos essa necessidade”, diz.


Na foto, Adriana, o esposo Adriano e os filhos João Gabriel, Marina e o pequeno
Luiz Miguel, estudantes do Colégio Marista João Paulo II, de Brasília (DF).

 

ELOGIAR COM SINCERIDADE

Mais importante do que elogiar é elogiar com sinceridade, como aponta a psicóloga Carolina Lisboa. “Se você não acredita no que vai exaltar, não fale. As crianças notam quando não é verdadeiro e isso é um tiro no pé, gerando desconfiança ao invés de segurança”. Ela complementa que, por vezes, os pais tentam compensar com um elogio um sentimento de pena que tiveram diante de alguma situação, mas isso não é adequado. “O elogio passa a ser associado a algo negativo, pois a criança tem consciência de que certos comportamentos não são passíveis de elogio”.
 

O exercício do elogio sincero serve também para momentos em que, aparentemente, não se tem o que valorizar. Chapman desafia os pais a encontrarem uma palavra de afirmação diante de um erro. Para esse momento, é preciso jogar fora as lentes da piedade e revestir os olhos com sinceridade, procurando um tesouro. “Valorizar os filhos quando eles são bem-sucedidos é fácil. 'Bom trabalho', 'Você conseguiu', 'Você é tão inteligente'. Mas nós podemos e devemos buscar oportunidades de elogiar ou encorajar mesmo quando eles cometem um erro. Por exemplo, se uma criança quer se servir de uma bebida e ela pode tentar sozinha, nós podemos supervisioná-la e ajudá-la. Quando espirrar um pouco de bebida para fora do copo, podemos dizer 'Você quase conseguiu' ou 'Nós podemos limpar isso juntos'. Isso é um encorajamento. Nós não estamos bravos e acreditamos naquele filho. Essa é a mensagem transmitida quando respondida assim”.
 

Tanto o reconhecimento de uma atitude como uma característica pessoal podem ser elogiados. “Isso é um ponto importante para nós, pais: comunicar de formas tão diferentes quanto for possível que realmente nos importamos com nossas crianças, que acreditamos que elas são capazes, que sabemos que não são perfeitas mas têm muito a oferecer”, diz Chapman. Para Adriana, os dois tipos de elogios são igualmente importantes. “Quando os esforços são elogiados, estamos valorizando a capacidade de vencer obstáculos, ao passo que quando elogiamos alguma característica pessoal está se validando quem os filhos são. O que conta é reconhecer o valor que eles têm de forma sincera e verdadeira”.

 

Chapmam lembra que, em última análise, a criança não vai se lembrar de todas as palavras positivas ditas a ela (se foi valorizando o esforço ou uma característica), mas ficará em seu subconsciente um senso de que, não importa o que aconteça, os pais se importam verdadeiramente com ela. Logo, segundo o antropólogo, a mensagem é: pais, relaxem e elogiem sinceramente seus filhos. “Vocês não precisam ser perfeitos, nem falar palavras perfeitas no tempo perfeito. É mais importante que, como pais, nós comuniquemos às crianças, constante e claramente, que elas têm valor, não importa o que aconteça, perdendo ou ganhando”.

 

Confira esta e outras matérias na revista Em Família, 11ª Edição | 2º Semestre de 2016.

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