Entrevista com Marcos Piangers: Aprendendo com os filhos a ser pai

Por Michele Bravos 

 

Em entrevista exclusiva para a revista Em Família, Marcos Piangers, pai da Anita e da Aurora, e também autor dos livros O papai é pop e O papai é pop 2, fala sobre o desafio de ser pai em um mundo em que os homens não são “treinados” para isso.

 

Marcos Piangers com Anita e Aurora

 

Equipe Editorial: Os homens sabem ser pais?

Piangers: A gente não é “treinado” para ser pai. Mas vivemos uma reconfiguração familiar. No momento em que a mulher começa a trabalhar mais, o homem tem um espaço para preencher no seio familiar e, consequentemente, está descobrindo o romantismo e a beleza da paternidade.


E.E: Que tijolos sustentam o muro que separa pais de filhos?

Piangers: A gente saiu de uma geração que não falava eu te amo, que não abraçava, que não era muito carinhosa. E aí a gente tem um ponto bem importante. Um dos tijolos que separam pais e filhos é o “não treinamento” de pais. O homem não é treinado para cuidar de criança. Ele não brinca com boneca. Ele não é incentivado pelos pais a estar pensando o tempo todo numa família. Ao contrário da mulher. Desde pequenininha, ela escuta que vai se casar, que um dia vai ter seus filhos, que um dia vai ter uma casa. O menino, não. Ele é treinado para ser “pegador”, para se distanciar de relacionamentos mais íntimos, mais sensíveis. Acho que isso acaba gerando pais que muitas vezes não sabem como se aproximar dos filhos.

 

E.E: Qual a sua interpretação sobre a crise de incompreensão entre pais e filhos?

Piangers: Eu acho que existe um abismo geracional. Na verdade, sempre existiu. Acredito que a gente tem essa dificuldade de perceber nos jovens aquilo que a gente já foi, e os jovens, evidentemente, têm uma dificuldade de perceber que os pais já foram jovens. Os pais, por terem vivido muitas experiências, sabem mais do que os filhos em alguns aspectos. Eu acredito, sim, que a gente vive uma crise de incompreensão, mas ela é habitual. A tecnologia também tem aumentado a dificuldade de comunicação entre pais e filhos.


E.E: Como vencer essa incompreensão?

Piangers: Acho que a forma de vencer essa dificuldade de comunicação é passando tempo junto. Tendo tempo de qualidade e, se possível, com tempo privado. Só você e o seu filho ou filha. O que eu faço lá em casa é, uma vez por semana, tentar almoçar com a minha filha mais velha, só nós dois. É um tempo em que a mais nova não está interrompendo e a minha esposa não está ali, podendo inibir uma determinada conversa. Então, acho legal quando temos um tempo só para nós. Espero que isso dure para sempre e que nos mantenha com laços muito próximos para o resto da minha vida.


E.E: De que forma você acha que a tecnologia tem atrapalhado essa relação?

Piangers: No momento em que meu filho sabe mais de tecnologia do que eu, eu me sinto acuado e compelido a não discutir com ele. A gente saiu daquela geração em que só se aprendia com os pais e estamos vivendo uma geração em que os filhos também ensinam aos pais. Percebo que isso deixa alguns pais encabulados de conversar e se relacionar. Além disso, uma geração que está o tempo todo olhando para uma tela é distante. A tela nos distancia. Eu tenho convicção de que a tela nos deixa mais distantes e mais cínicos muitas vezes. A gente fala nas redes sociais coisas que não falaríamos olhando nos olhos. A gente é mais malvado nas redes sociais. E isso é preocupante. Isso é ter em mente também que a tecnologia sempre moldou o comportamento humano, historicamente falando. E que as redes sociais e os smartphones estão, sim, mudando a forma como a gente se comporta e como as futuras gerações vão se comportar. Mais uma vez, a solução para isso é a mesma já dita antes: passar algum tempo com o seu filho. Pode parecer complicado, mas é a única forma de você romper esse muro. Sem computador, nem smartphone no meio. Sem estar lendo um e-mail ou uma mensagem durante o tempo com seu filho. Essa é a coisa mais importante. Você que permanece diante de uma tela, fazendo outras atividades, na companhia do seu filho, só está tornando esse muro ainda mais alto e gerando motivo de distanciamento.


E.E: O que suas filhas lhe ensinaram sobre isso?

Piangers: Uma vez, em casa, eu estava respondendo o e-mail profissional, enquanto a minha filha estava me chamando. Até que ela se colocou debaixo do meu celular e falou: "Pai, para você olhar para mim só eu ficando atrás do seu celular". Isso foi um recado para me dizer que a tela estava nos distanciando. Eu até posso levar trabalho para casa, mas esse trabalho vai ser feito depois que elas forem dormir.

 

E.E: Você acha que a raiz da rebeldia dos filhos pode estar no distanciamento e no orgulho dos pais?

Piangers: A rebeldia dos filhos é algo inato. Sempre que a gente começa a descobrir algumas coisas também passa a confrontar tudo aquilo que os nossos pais dizem. A fase da juventude é uma fase de tentar encontrar quem a gente é. A gente passa a infância e a adolescência tentando se encontrar como pessoa. Acho que o melhor que um pai pode fazer é ajudar o filho nessa descoberta, não tendo preconceito com a nova geração e seus discursos, sendo capaz de entender o mundo da perspectiva do filho e conversar sobre todos os assuntos: drogas, sexo, liberdade, todos os tabus. Só assim podemos criar laços de intimidade, de confidência. Vem vindo aí uma geração que não é nada orgulhosa, que não está preocupada com hierarquia, nem com dinheiro. É uma geração muito idealista que está mais comprometida em cooperar e compartilhar do que com ter poder, como gerações do passado.

 

"Um dos tijolos que separam pais e filhos é o 'não treinamento' de pais". (Marcos Piangers)

 

E.E.: Diante de pais inatingíveis, qual deve ser a postura dos filhos, na sua opinião?

Piangers: É muito difícil um filho arrumar uma situação de distância. Cabe sempre ao pai resolver essa questão. É muito importante que o pai faça uma reflexão e perceba se não está sendo duro demais e se isso não está criando uma distância entre eles, ou se ele não está falhando em impor limites. Porque isso também pode distanciar. A capacidade que um pai tem de perceber qual é a hora de dizer não é o que faz dele um bom pai. É muito difícil um filho, que percebe o pai como uma pessoa distante, conseguir arrumar isso. Um pai que é inatingível com o tempo vai ficando cada vez mais orgulhoso.

 

E.E: Você já pediu perdão para suas filhas por ter feito algo que as tenha magoado?

Piangers: Claro! O tempo todo. Uma vez, a gente estava na cozinha fazendo um bolo e eu estava tirando um monte de fotos, achando que aquela era uma atitude muito legal. Então minha filha falou para mim: "Pai, vamos tirar menos fotos e viver mais a vida!". Isso foi um ensinamento para eu parar de querer abastecer o monstro das redes sociais e tentar viver de fato a vida que estou vivendo ao lado dela, sem tirar fotos, mas tentando guardar na lembrança e na alma os momentos lindos que a gente vive juntos. Eu acho fantástico pais admitirem seus erros para os filhos, reconhecendo que falharam. Se o pai puder fazer isso sistematicamente, será cada vez mais fácil e vai deixar o filho mais próximo. É um milagre!

 

E.E: Em uma de suas palestras, você afirmou que não cresceu na presença do seu pai e que isso foi um grande motivador para você querer ser um paizão. O que aconteceu no seu caminho que o fez ter essa postura?
Piangers: Teria sido um motivador ainda maior se eu tivesse tido um grande pai. Eu seria um pai melhor, mais treinado, com alguém que tivesse me ensinado a ser pai. Eu errei muito por não ter sido treinado. Eu quebrei um ciclo com muito esforço, com o auxílio da minha mãe, da minha mulher e das minhas filhas. Mudei meu jeito de ver as coisas, de pensar e de me comportar. Preparar um ser humano para ser melhor é sempre trabalhoso. Quebrar um ciclo é uma decisão difícil e desgastante, mas é libertador e fundamental. Quando um ciclo se quebra, você transforma a sua descendência em uma descendência melhor.

 

Confira esta e outras matérias na revista Em Família, 11ª Edição | 2º Semestre de 2016.

 

 

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