Na mesma escola, mãe e filha sonham com a formatura

Quase 40 anos de vida separam Teresinha da Silva Garcia e Deise da Silva Garcia, que também nasceram em cidades distintas, Santo Ângelo e Santa Rosa, respectivamente. As diferenças entre elas, no entanto, param por aí. Estudantes do Colégio Marista São Marcelino Champagnat (EJA), de Novo Hamburgo, mãe e filha perseguem, juntas, o sonho de concluir os estudos na educação básica.

A trajetória de ambas na escola teve início há dois anos, quando Deise, que havia parado de estudar no 9º ano, tentou conseguir sozinha, uma vaga no Colégio. Sem sucesso, ela decidiu fazer uma nova tentativa, dessa vez acompanhada por Dona Teresinha, que deixou os estudos aos 10 anos, no 5º ano, para cuidar da família. A inscrição dupla deu sorte a elas, que no semestre seguinte já estavam matriculadas para estudar gratuitamente.


Mesmo em turmas diferentes, mãe e filha passam tempo juntas na escola

Atualmente, Deise, 19 anos, se encontra no 2º ano do Ensino Médio, ao passo que sua mãe cursa o 8º ano do Ensino Fundamental. Mesmo próxima da formatura, prevista para o fim do ano, ela relembra os primeiros passos na instituição, marcados por diversos desafios. “Eu trabalhava o dia inteiro e chegava muito cansada na escola. Por vezes, dormia na aula. Logo percebi que precisaria me dedicar somente aos estudos”, conta a jovem.

Teresinha, hoje com 58 anos, enfrentou dificuldades que a afastaram da escola logo cedo. Alicerce de uma família de três filhos, netos e marido, que trabalha com eletrodomésticos, a matriarca orgulha-se de também ter se dedicado a cuidar da mãe já falecida e a trabalhar em fábricas e restaurantes para auxiliar a família. “Hoje eu estou aqui por causa dela (Deise), que me fez acreditar que eu poderia voltar a estudar após tanto tempo”, celebra. Para Deise, a gratidão é mútua, já que a mãe evitou que ela abandonasse tudo. “Vou ser a primeira da família a terminar a escola e depois vou comemorar a formatura da minha mãe”, empolga-se Deise.

Mesmo indo e voltando da escola juntas, Teresinha e Deise também passam tempo juntas no recreio. Apesar de estarem em turmas diferentes, ambas aproveitam o intervalo para integrar também os colegas durante o lanche. “A mãe traz o lanche e uma espera a outra. Eu vou na sala dela e ela na minha. Aqui eu sou o que sou em casa”, afirma Deise. Nem mesmo as eventuais brigas são capazes de separá-las por muito tempo. “Como toda a relação de mãe e filha, a gente também briga, mas se entende muito. Ela é muito parceira e moleca”, complementa.


Deise (esq.) poderá se formar no fim do ano

Na hora de estudar, a boa relação com os professores é comemorada pelas duas. “Eles ajudam muito a gente, são muito queridos e pacientes. Eu gosto de todos”, pondera Teresinha. A empolgação diminui quando o assunto é as disciplinas mais “difíceis”, mas ela não perde o entusiasmo. “Eu adorava Matemática até o 7º ano, agora está cada vez mais difícil”, brinca.

Com a formatura em um horizonte próximo, mãe e filha se alinham na projeção de futuro e garantem que não ficarão satisfeitas apenas em concluir o Ensino Médio. Aproveitando a preparação do Colégio para o Enem, elas já se imaginam na faculdade. Deise pretende se formar em Comunicação, para poder trabalhar como radialista, mas gosta de deixar as opções abertas. “Na verdade, quero fazer tudo que eu puder”, salienta. A mãe busca aproveitar a experiência que construiu cuidando de pessoas e seguir na área da Enfermagem. Ambas já são inspiração dentro de casa e, aos poucos, buscam incentivar também a irmã mais velha de Deise, Denise. “Ela tem vontade de voltar a estudar porque não quer perder pra mim”, diverte-se Teresinha.

Em casa, na sala de aula, no pátio do Colégio, Teresinha e Deise se espelham uma na outra em uma relação que pode ser de colega e amiga, mas atinge seu amor maior no laço de mãe e filha que elas constroem, potencializadas pela educação, todos os dias.

 

 

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