Passaporte Carimbado

Por Michele Bravos
 
Crise migratória, fechamento de fronteiras, xenofobia... E onde fica o direito de ir e vir? O princípio de respeito ao outro? Para entendermos essas questões, cinco brasileiros espalhados pelo mundo e que se consideram cidadãos globais serão os guias nesta matéria, que se propõe a expandir os horizontes. Vamos levar essa discussão para dentro de casa?
 
Paula Fiuza, Homero Aziz, Mariana Oliveira, Wagner Vila e Mariana Gebran. Cinco brasileiros que há anos transcenderam as fronteiras nacionais (alguns deles já tendo vivido em mais de um país) e que se consideram cidadãos globais. Cada um com a sua definição desse termo, mas com um ponto em comum: a capacidade de ver com amplitude as diferentes culturas do mundo, respeitando cada uma e permitindo se conectar e se identificar com elas. Pela perspectiva desses brasileiros, que hoje estão em outros territórios (América do Norte, Oriente Médio, Europa, Ásia e África), inicia-se aqui, uma jornada para se tentar compreender as diversidades globais de pensamentos e ações. Com a crise migratória atual e as posturas protecionistas dos Estados Unidos e alguns países da Europa sobre o ingresso de estrangeiros – em especial refugiados –, os holofotes se encontram sobre a discussão do direito de ir e vir, garantido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, portanto, aplicável a todos os habitantes do mundo.
 
Esse grande caos migratório ganhou mais notoriedade na mídia nos últimos cinco anos, desde o início dos conflitos envolvendo o grupo radical Estado Islâmico, a Síria e o Iraque. O Brasil, apesar da distância, passou a receber imigrantes provenientes desse conflito – algo novo para o País. E, na mesma época, o Brasil, também passou a ser o destino de muitos haitianos (que fugiam de uma crise social e econômica agravada pelo terremoto que abalou o país em 2010). Mas Wagner Vila lembra que esse caos mundial já existia muito antes, só não era amplamente divulgado como agora. Ele se recorda das situações de deslocamentos forçados entre os países africanos, por exemplo. “Quando morei na África, o país que nos recebeu tinha acabado de sair de uma guerra civil de 32 anos. Muita gente fugiu para outros países e, quando a guerra acabou, as Nações Unidas começaram a trazer de volta milhares de pessoas para seu país natal. Vi caminhões chegando com centenas de refugiados. Muitos deles não tinham nem mesmo lugar pra morar. Mas estavam de volta a sua terra. Há dois lados da moeda. Um lado é o de quem é refugiado. São pessoas! Em certos casos, uma ajuda rápida e urgente se faz necessária, mas, em outros casos, é preciso uma ajuda mais pensada e cautelosa para que os resultados de longo prazo sejam bons para eles mesmos. Do outro
lado, está quem recebe o refugiado. Não importa se o país receptor é forte ou fraco economicamente, a verdade é que quem recebe sempre tem receios. Por exemplo: quais são as consequências de os recebermos?
 
Se quisermos tratar bem uma pessoa temos que estar dispostos a ir além do que pensamos que podemos ir, humanamente falando”. Para Paula Fiuza, organizadora de eventos, que está morando há quatro anos nos Estados Unidos, percebe-se que o discurso do candidato à presidência Donald Trump, na verdade, reflete o que muitos no país pensam, mas ainda não haviam declarado. Por isso ele encontra tantos adeptos. “Há vários fatores que contribuem para a popularidade dele, mas sem dúvida o principal é sua oratória: ele anuncia o que muitas pessoas pensam e já pensavam, mas não tinham coragem de assumir. O discurso preconceituoso e intolerante está sendo baseado em sentimentos, na tentativa de convencer os eleitores pelas emoções, e não por fatos. ‘As pessoas se sentem ameaçadas por imigrantes’, ‘As pessoas sentem que a economia está ruim’, mesmo quando os dados apontam o contrário”. Pelas ruas de Paris, onde vive a analista de segurança financeira Mariana Oliveira, o sentimento de insegurança e de necessidade de proteção nacional é constante, principalmente com os recentes ataques terroristas à França. “Quando questiono meus vizinhos ou colegas de trabalho sobre como era Paris antigamente, eles contam, incrédulos, como a cidade mudou, para pior, nos últimos vinte anos. Culpa dos imigrantes ou não, em alguns momentos, eles são associados a essa mudança negativa”. Vale lembrar que a França se encontra, assim como os Estados Unidos, em uma crise com os imigrantes há anos – tanto com os do continente africano quanto com os de países árabes. Demonstrações de preconceito, tendo como respaldo a manutenção da ordem pública, são frequentes no território francês. As notícias mais recentes mostram a proibição do burkini (vestimenta usada pelas mulheres muçulmanas para irem à praia) por motivos de segurança.
 
Para Mariana Oliveira, além de cobrar dos Estados posturas adequadas com relação aos imigrantes, é preciso também certa disposição daqueles que chegam a um novo país para se adaptar às novas realidades. “Desde pequena me ensinaram que, quando vamos à casa de alguém, devemos respeitar as regras daquela casa. Por mais que eu tivesse muita intimidade, isso não me dava o direito de mudar a rotina de quem morava lá, de impor novos hábitos. Nesses anos que estou ‘na casa de outras pessoas’, morando na França, me policio para continuar tendo o mesmo respeito. Minha cultura, meus hábitos e meu modo de ser são adaptados ao máximo para que eu consiga viver em harmonia com os locais e com outros expatriados que também adotaram a França como casa. Acho que um dos motivos que levam pessoas como Donald Trump e Marine Le Pen (líder da Frente Nacional, partido de extrema direita na França) a ganhar tanta popularidade é justamente algumas pessoas começarem a ficar fartas de se sentirem invadidas em sua própria casa”.


FRONTEIRAS FECHADAS 
 
Se por um lado existe um pensamento atual que valoriza conhecer outros territórios e culturas, sendo facilitado pelos meios de transporte, pelas novas formas de acomodação e as infinitas maneiras de se viabilizar isso economicamente, por outro, as fronteiras se encontram mais fechadas do que antes. De acordo com o doutor em Direito José Gediel, coordenador do projeto Hospitalidades, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), reconhecido pelas Nações Unidas pela efetividade no trabalho com imigrantes e refugiados, a ideia de um mundo atual de trânsito mais livre é ilusória: “Nunca estivemos tão fechados. As fronteiras estão mais guardadas e intransponíveis do que antes”.
 
A professora de Direito Internacional Carolina Claro, da Universidade de Brasília (UnB), e também consultora em legislação e políticas migratórias, explica que essa superproteção das fronteiras ou mesmo o fechamento delas não soluciona nada. “Essas medidas não diminuem o fluxo, mas aumentam a imigração de ‘indocumentados’, o que fomenta a imigração ilegal, como o financiamento de ‘coiotes’. É um equívoco pensar que medidas de impedimento de entrada de estrangeiros estarão protegendo o país”.
 
 
Para o missionário Wagner Vila, que vive em Taiwan, é preciso haver um equilíbrio pautado no amor ao próximo e pensando no bem coletivo – não só de quem vem, mas dos cidadãos locais também. “Para quem deveríamos abrir as portas e para quem não deveríamos? Eu não convido todos os que eu conheço para virem a minha casa. Minha casa é minha casa. Temos as nossas razões para receber ou não pessoas. Contudo, isso não pode ser tornar uma coisa engessada que me atrapalhe ao praticar os princípios de generosidade, hospitalidade e de amor ao próximo. Já recebi gente que não conhecia em minha casa, inclusive um refugiado do genocídio que aconteceu no Burundi, África. Mas também já tive que dizer não para pessoas que conheço por razões diversas. Acredito que como nação precisamos, sim, ser cuidadosos com nossas fronteiras, mas sem perder a misericórdia”. 
 
Em verdade, qualquer cidadão deveria ser considerado um cidadão do mundo, com possibilidades reais de ir e vir pelas nações, como afirma Sérgio Nunes, coordenador de Igualdade Étnica e Racial da Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos do Rio Grande do Sul. José Gediel lembra, porém, que esse conceito, de forma efetiva, é quase impossível de se realizar: “A ideia de cidadania do mundo é incompatível com o conceito de Estado Nacional que vigora hoje”.
Para exemplificar, Gediel cita o próprio cenário brasileiro: “Nosso País viveu uma ditadura de 25 anos, em que um estrangeiro podia ser visto como um perigo, trazendo uma imagem ruim para o país. Naquela época, só os Estados Unidos eram bem-vindos. Ou seja, a postura de hoje é decorrente da história. Ainda existe uma ideia de necessidade de proteção do Estado”. Por isso, para se falar em cidadania global, é preciso conhecer e aceitar a história de cada local, entendendo suas limitações, assim como exercitar mais a tolerância e a empatia com aquele que é estrangeiro. “Um imigrante europeu e um africano devem ser vistos de maneira igual, pelo olhar da migração. Ambos são imigrantes, com as suas particularidades culturais. É preciso se colocar no lugar do outro e se perguntar como você gostaria de ser tratado no mundo”, diz Sérgio Nunes.
 

AVERSÃO AO OUTRO

O medo e o preconceito gerados pelo desconhecido são os principais fatores que fomentam a aversão ao estrangeiro, na opinião de Homero Aziz. Ele trabalha, atualmente, em uma base humanitária na Jordânia, na acolhida de refugiados sírios e iraquianos, de onde faz uma leitura crítica sobre essa questão. “A mídia instiga o medo no público através de uma associação errada dos refugiados com o terrorismo, a violência e a guerra. Muitos acabam, então, por pensar que juntamente com os refugiados virão todos os problemas que eles enfrentaram em seus países de origem, o que não faz sentido. Também, de uma maneira geral, as pessoas avaliam a situação sem conhecer bem todos os aspectos e, principalmente, sem humanizar a crise. Refugiados são pessoas normais como a gente, mas que perderam tudo por causa de tantos fatores difíceis e traumáticos”. 
 
Do ponto de vista de quem é imigrante em outro país, Paula Fiuza afirma que já sofreu preconceito nos Estados Unidos por ser brasileira. “Estima-se que 60 mil brasileiros vivam em Orlando, então existe uma ideia de ‘invasão brasileira’. E, como nem todas as pessoas se comportam da melhor maneira – e todos tendem a se lembrar dos piores comportamentos em vez das experiências agradáveis –, existe, sim, um estereótipo. Às vezes, sinto uma pressão de me desculpar pelo meu País, por quem somos, mas não é bem por aí, né?”
 
 
Para Mariana Gebran, que já morou no Djibouti e, atualmente, vive no Quênia, ambos no continente africano, ela entende que para pôr um fim nos discursos de ódio motivados, muitas vezes, por medo, é preciso olhar para além dos números da migração e enxergar seres humanos. “Uma pessoa que tem ódio e aversão de um imigrante precisa entender que situações de adversidade, sejam elas econômicas, políticas, que levam a um deslocamento, atingem pessoas e não números. No caso da guerra, o conflito mata pessoas, seres humanos. A cada bomba, cada barco que afunda cheio de imigrantes, são milhares de histórias, sonhos, dores, alegrias, lágrimas e sorrisos que desaparecem. Olhar além da cor, da religião e do país de origem, enxergar pessoas, vidas e sonhos é uma atividade fundamental para que a aversão e o ódio de imigrantes não tomem conta da nossa sociedade”.
 

MUDANÇA DE MENTALIDADE

“Eles estão roubando os nossos empregos” – esta é a frase do senso comum para justificar por que os estrangeiros são malvistos no mundo e no Brasil. Os cinco cidadãos globais desta matéria afirmam que esse também é o discurso presente nas regiões em que vivem. (Vale lembrar que de modo algum existe justificativa para posturas de exclusão, ódio ou preconceito.) Para Sérgio Nunes, é preciso mais esclarecimento para a população. “Precisamos trabalhar formas de informar os cidadãos sobre quem são os estrangeiros que estão chegando a determinado país. No caso do Brasil, por pior que esteja a nossa situação econômica, eles não estão roubando empregos. Pelo contrário, eles estão ocupando vagas que os brasileiros já não queriam mais. É preciso desmistificar isso”. 
 
Homero Aziz percebe, pela proximidade com refugiados, que realmente existe um mito em torno da capacidade ou do potencial dessas pessoas. “Existem centenas de milhares de refugiados altamente capacitados em suas áreas profissionais, algo que quase nunca é levado em consideração. Se, assim como o Canadá e a Austrália, nosso país olhasse a crise por esse lado, talvez pudéssemos usar a oportunidade que temos de receber refugiados para crescer em diferentes áreas nas quais esses profissionais poderiam atuar”.
 
Diante de um cenário que ainda envolve desinformação por parte da população e estratégias efetivas de acolhida por parte do governo, a consultora Carolina Claro entende a necessidade de maior planejamento para receber os estrangeiros no Brasil, em especial, os refugiados, que possuem uma condição diferente dos demais imigrantes. 
 
Na opinião de Mariana Oliveira, um questionamento que deve ser feito pelos governos e pela sociedade civil é: “O imigrante será inserido no dia a dia ou ficará às margens da sociedade?”. 
 
Para Wagner Vila, o País precisa refletir sobre o assunto para não assumir, facilmente, uma postura assistencialista, que nega a autonomia do imigrante. “Um ‘sim’ sem planejamento pode gerar problemas, como o assistencialismo. Ou seja, não ajudamos as pessoas a se desenvolverem. À primeira vista, receber refugiados é um ato de ajuda urgente e específica. Mas, numa segunda fase, isso pode se tornar paternalismo se a estrutura não ajudar essas pessoas a se desenvolverem no novo país”.
 
Como lembra Sérgio Nunes, quem dá suporte para todo esse novo contexto migratório que o Brasil tem vivido são as pastorais, as ONGs e a sociedade civil. Tanto ele quanto Carolina Claro identificam que é preciso haver mais articulação desses segmentos com o governo, principalmente para não reduzir a situação à assistência sem medidas efetivas de inserção. José Gediel comenta que essa deve ser uma postura de todos e que cabe à sociedade civil também se perguntar sobre a temática, na busca por soluções e atitudes que contribuam para melhor acolher os imigrantes – em especial os refugiados.
 

Confira esta e outras matérias na revista Em Família, 11ª Edição | 2º Semestre de 2016.

 

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